Por que o Real se desvalorizou tanto?

Quem se planejou para viajar ao exterior esse ano, pode estar bastante preocupado com a valorização do dólar. Empresas que importam ou tem dívidas em dólar, estão com bastante receio.

Afinal, por que o real perdeu tanto valor em pouco tempo?

Primeiro, devemos entender que o preço do dólar nada mais é do que a influência da oferta e da procura pela moeda em relação à outra moeda – no caso brasileiro, o Real. Como o dólar é a moeda referência para o mundo, todos se sentem mais seguros quando possuem a moeda. O mercado costuma dizer que comprando dólar, você está deixando seu dinheiro em “moeda forte”.

Por que a moeda subiu nos últimos tempos?

Primeiro, há vários fatores – tanto internos, quanto externos – que estão pressionando a oferta e procura pela moeda americana. Primeiro, vou destacar os fatores externos.

Após a crise do subprime em 2008, os Estados Unidos com o intuito de socorrer sua economia, diminuíram os juros básicos. Essa diminuição injetou liquidez abundante de dólares para os outros países. Como as taxas estavam baixas nos EUA – depois com o agravamento da crise, o Japão e a União Europeia seguiram o mesmo caminho – os investidores aplicaram o dinheiro em outros países (principalmente emergentes), para captar o diferencial de juros. Uma operação chamada Carry Trade. Imagine que você consiga pegar emprestado nos EUA um valor a taxa de juros de 0,5% a.a e consegue aplicar esse valor, por exemplo no Brasil, a 15% a.a.

Real x Dólar 2009 – 2015

Esse processo, considerando a teoria de oferta e demanda, fez com que o dólar desvalorizasse, ou como os economistas dizem, que o real se valorizasse em relação ao dólar. Esse movimento pode ser observado a partir de 2009 até meados de 2013.

No cenário atual, a situação se inverteu. Com a economia norte americana melhorando, o governo está se preparando para subir os juros. Exatamente como aconteceu em 2009, esse movimento está pressionando as moedas mundiais – só que dessa vez, ao contrário. Como alguns investidores estão levando novamente seu dinheiro para investir nos EUA, a saída de dólares de outros países se intensificou.

Esse movimento aconteceu praticamente no mundo todo. O peso colombiano perdeu 51,48%, o Peso Argentino 11,67%, o Euro 14,52%, todos em relação ao dólar a partir de janeiro deste ano. Mas, no topo do ranking está Rússia, com -72,37%, e o Brasil com -67,29% de perda de valor em relação ao dólar.

Por que nossa moeda desvalorizou tanto? Por que só não perdemos para um país que é totalmente dependente de petróleo e está com sanções do Ocidente?

Se o ambiente externo jogou contra nossa moeda, o ambiente interno jogou ainda mais. Com a economia afundando cada vez mais, com expectativas dos empresário e consumidores cada vez mais baixa, estamos experimentando uma das piores crises dos últimos 25 anos.

Com um cenário político conturbado, orçamento público se deteriorando, com um governo sem base na Câmara dos Deputados e no Senado, com avaliação abaixo de 10% da presidente Dilma, ninguém sabe quais são os próximos capítulos dessa novela. Toda essa imprevisibilidade, afugenta investidores – tanto nacionais, quanto internacionais – e trava os gastos da economia como um todo. Esse medo, atrelado a imprevisibilidade, faz com que os agentes econômicos, para se protegerem, troquem seus Reais por Dólares. Mais uma vez, jogando contra na teoria de oferta e demanda.

cunha-dilma

Eduardo Cunha e Dilma Rousseff – Troca de farpas

Mas, e a perspectiva?

Referente ao cenário externo, analistas acreditam que a subida dos juros americanos não virá esse ano. Será postergado para 2016. O que já aliviou um pouco a pressão sobre as moedas.

Agora, o cenário interno continua ainda muito conturbado. A Operação Lava-Jato ainda não mostrou todos os envolvidos, sendo possível surgir novos personagens a qualquer momento. O governo Dilma, mesmo com a reforma ministerial, não está conseguindo reerguer sua base de apoio na Câmara e no Senado, colocando em risco o ajuste fiscal e a votação de algumas “pautas-bombas”. Somado a isso, há um inimigo declarado do governo, Eduardo Cunha. (façam suas apostas, quanto tempo dura Eduardo na Presidência da Câmara?)

Nem o próprio partido da Presidente está seguro de todas as políticas propostas para sair da crise – principalmente às relacionadas ao ministro Levy. Vira e mexe aparece ou o Presidente do Partido, Rui Falcão, ou Lula querendo a cabeça do Levy.

Com todo esse cenário nebuloso, fica difícil avistar o longo prazo. Acabamos nos prendendo ao curto prazo. Só que, devemos lembrar, os investimentos só são feitos com olhos para o longo prazo. Sem isso, continuaremos com nossa economia travada, com recessão e cada vez mais volátil.

Teremos que resolver muitos conflitos para que a tempestade passe e possamos vislumbrar mais uma vez o crescimento e desenvolvimento econômico.

Que ela passe o quanto antes!

Fabio Jorge

Assessor de Investimentos e Economista